eBook Rhapsody

17/04/2012
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por Ari Pereira
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Um belo dia o casamento secular de “Sir” Livro Impresso e de “Dona Idéia” começou a apresentar sinais de exaustão. Algumas questões ecológicas e mesmo de “distribuição”, entre inúmeras outras, formava o pano de fundo de uma tempestade no horizonte.

O Senhor “Livro Impresso” passou a tornar-se inconveniente por sua maior qualidade: ser físico. “Dona Idéia não conseguia identificar onde estava seu desconforto, pois seu casamento era maravilhoso e por anos foi elogiado por todos como a relação ideal, ao ponto de ninguém imaginar que um dia viessem a se separar. Naquela época, tudo era um ‘mar de rosas’ no reino. Seu amante “Livro”, que por ser físico, não compreendia muito bem as elucubrações abstratas de Dona Ideia. Por ser totalmente abstrata, ela nunca tinha “palavras” que expressassem seu desconforto. Apenas via dia-a-dia uma quantidade cada vez menor de súditos que se dispusessem a “ler” seu esposo, e com isso aplacar a infindável sede de seus súditos com entendimento, lazer, conhecimento ou mesmo informação. Era uma agonia só…

Lembra-se com certa ternura do tempo que para expressar-se, contava apenas com a boa vontade de alguns “letrados” amigos de “Seu” Livro (que na época nem detinha a alcunha de “impresso”). Com muito esforço e na surdina da noite, viabilizavam o “namoro” destes pares, multiplicando-os para o deleite de uns poucos escolhidos. Era a vida, pensava Dona Ideia, fazer o que.. Paciência era e ainda é uma das maiores virtudes de Dona Ideia.

Até que um dia apareceu naquele reino, que nada tinha de encantado, um Mago.

Gutenberg era seu nome. Já vinha de outros reinos onde tinha feito prodígios na arquitetura, e tão compadecido ficou com a tristeza daquele drama, que num átimo destemido conjurou um poderoso feitiço que propiciou a “Seu Livro” a multiplicar-se infinitamente, potencializando Dona Ideia a disseminar-se aos mais longínquos rincões do mundo conhecido.

Era o dote que faltava para aquele casamento! Daquele dia em diante Dona Ideia enamorou-se e encantou-se profundamente por seu bem-amado que passou a ter um sobrenome: impresso! O conjuro do Mago foi muito potente, mas também revelador. “… Serás a partir de hoje onipresente em todos os cantos, mas nunca esqueças que sua existência fundamenta-se na disseminação de Dona Ideia.

– Vossas capacidades distributivas – decretava o Mago Gutenberg – são um meio, e não um fim em si mesmo para as necessidades de Dona Ideia”.

Assim foi decretado e assim foi feito.

O tempo passou e “Seu Livro”, que agora detinha o pomposo predicado de “Impresso”, também passou a expressar e disseminar Dona Ideia. Suas capacidades distributivas eram imensas, pois bastava “empacotá-lo” que Dona Ideia agora podia ser fartamente sorvida, amada, compreendida e replicada. Dona Ideia era toda sorrisos e “Seu” Livro Impresso, todo orgulho.

Mas foi tanto tempo que passaram juntos, que “Seu” Livro Impresso, como bom marido provinciano,  passou a acreditar piamente que Dona “Ideia” só “existia” por sua causa. Já não lembrava mais do tempo que cortejava-a com suas serenatas de “distribuição” e promessas bem intencionadas de felicidade eterna.

Com o passar dos séculos, Dona Ideia passou a manifestar sinais de profundo desconforto. Seu amado esposo por quem tinha profunda admiração não mais supria “suas necessidades” e como boa esposa, vivia a reprimir sua “insatisfação existencial”, demonstrando eventualmente sinais de certa esquizofrenia. Passou a ter comportamentos entendidos como libidinosos por “Seu Livro Impresso”, que prontamente repeliu seus adversários (e ainda reprime) com chacotas mal elaboradas sobre as limitações “distributivas” de seus potenciais concorrentes. Sua miopia era tamanha que chegou ao ponto de decretar a “fidelidade incondicional” para seus súditos: os leitores.

O casamento milenar estava a beira do divórcio. Justamente por que o esposo não vinha adaptando-se bem as “fecundas” necessidades de sua dileta esposa, Dona ideia.

“Seu” Livro Impresso porém agora já era idoso. Desejoso de retornar aos áureos tempos de sua “vitalidade” tentou reinventar-se num átimo de desespero e orgulho ferido, entrando em conluio com seu hipotético maior adversário, um fedelho chamado TXT, com a seguinte proposta:

– “… do alto de minha Real Realeza, farei concessões pela sua posse de minha Senhora com uma condição: terás que carregar meus atributos e atribuições em suas características, sendo que independente de como o faça, o faça pela minha fisicalidade, materialidade e capacidade de distribuição. E também não vos permito a onipresença. Terás que “estar” onde se fizeres necessário e para que não haja dúvidas de vossa ancestralidade real, passarás a deter a alcunha de EBOOK! O filho dileto de “Sir” Livro Impresso do Grande “Prelado” de Gutemberg, o primeiro e único!

“Seu” Livro impresso era só soberba em “capa e miolo”… Apesar de sua estratégia ser desesperada, era bem planejada. Ele sabia que jamais seu rival com profunda vocação de onipresença poderia conseguir satisfazer Dona Ideia com apelos nada naturais de materialidade e fisicalidade. Dona Ideia não queria nada disso. Queria apenas ser sorvida, refletida e eventualmente amada. Para ela, desapegada das coisas “materiais”, não via nenhum valor na concretude do que fosse. Importava apenas ser sorvida. Compreendida então, já seria o nirvana. Esse era (e ainda é) seu maior deleite…

“Seu” eBook era só paixão!

Inebriado pela possibilidade de legalizar finalmente seu flerte, de tudo fez para cumprir as determinações de “Sir” Livro Impresso. Mas como materializar-se? Existia apenas na “memória” de alguns poucos amigos que com-puta-dores de nosso nobre cavaleiro, davam-lhe guarida e o mínimo de energia para sua sobrevivência. Seus amigos a essa altura eram apenas ilustres desconhecidos que apenas aos poucos eram adotados pelos leitores que os viam como objetos de cálculo e nem um pouco abstratos. Muito menos para serem “veículos” de Dona Ideia. Que tristeza era a pobreza e falta de dotes de “Seu” eBook.

Mas perseverança era o que não lhe faltava! Arregaçou as mangas e pensou: “…se o que tenho são apenas meus amigos, com meus amigos eu vou”. Depois de algumas discussões chegou a constatação de que precisava materializar-se, sendo essa a única saída.

E assim foi feito: vestiu-se de “disquete” e foi a luta.

Infeliz de “Seu” eBook… Foi só risos e piadas. De fato parecia algo anacrônico e patético. Sua vestimenta além de limitada não tinha nada a ver com a percepção em voga de “leitura”. Foi um desastre só. O pior foi ter que ouvir as gargalhadas de “Sir” Livro Impresso, que debochava da sua ridícula roupagem de “disquete”, dizendo:

– És um bastardo mesmo! Filho meu não és, pois nada que de mim é gerado passa por essa vergonha. Veja a formosura de minha descendência na figura de Visconde de Journal, e Duquesa Magazine. És ridículo! No mínimo…”

Mas as coisas não estavam nada bem no reinado de “Sir” Livro Impresso. Mesmo o Visconde de Journal e a Duquesa Magazine já percebiam algo de muito perigoso no horizonte.

Apesar do papelão, Dona Ideia achou muito interessante a “vestimenta” de Seu “eBook”, e enquanto todos riam achegou-se a ele e com fraterna demonstração de carinho e lhe disse:

– Hoje és apenas um rascunho, mas toda obra-de-arte um dia não passou de rabisco. Dou-lhe o que mais tenho: uma ideia! Fale com minha bisneta “Publicidade”. Há tempos ela partiu de nosso reino e nunca mais voltou, mas algo me diz que está se dando muito bem e poderá lhe ajudar – aconselhou Dona Ideia.

Ocorre que quando uma mentira é repetida várias vezes pode tornar-se verdade, e foi o que aconteceu naquele reino. Há tanto tempo “Sir” Livro Impresso reinava soberano com seus atributos, que todos passaram a acreditar que de fato Dona Ideia dependia das virtudes de “Sir” Livro Impresso, e não o contrário.

Até nosso valente cavaleiro “Seu” eBook acreditava nisso, e a debalde das dicas de sua regente, ainda enxergava de forma obtusa suas próprias capacidades e não conseguia ver outra forma de “expressar” Dona Ideia que não fosse pela fisicalidade.

Assim, aventurou-se com fitas cassete, acreditou em CD-ROM’s e até em desespero embarcou na escória da sociedade: os infectos Pen-Drives!

Exausto, já sem esperança de dar vazão a sua amada e ridicularizado por tudo e por todos, nosso herói é apresentado num dia nublado ao ambicioso Lorde ePub.

No começo não deu muita bola para as investidas bem libidinosas de Lorde ePub, mas aos poucos foi cedendo aos seus apelos, pois a solidão era tamanha que cedeu finalmente aos seus caprichos.

Lorde ePub era muito bem visto no reino. Falante, era percebido por todos como detentor de enorme potencial de crescimento e pregava aos quatro cantos que seria o “alfaiate real definitivo” da realeza e com seus dotes de alta-costura, seria eternamente adotado.

Em sua venenosa abordagem, procurou nosso herói:

Advogava que a história da “distribuição” de Dona Ideia tinha um divisor de águas antes e depois de sua iluminada presença. Era tal a ilusão coletiva que todos compadecidos com a depressão aguda de Dona Ideia depositaram suas esperanças no discurso bem articulado de Lorde ePub.

– Esqueça a questão da materialidade. É uma pergunta sem resposta que jamais vai ser razoavelmente satisfeita por seres de nosso quilate. Você está dando murro em ponta-de-faca! Só conseguirá cada vez machucar-se mais, não percebe? Vou apresentá-lo para uns amigos meus que poderão lhe ajudar, e me ajudar – disse Lorde ePub.

E dessa forma “Seu” eBook viajou com o nobre ePub para o reinado onde “nascera” Lorde ePub. Chegando no distante “Vale do Silício” logo foram recebidos com Honras de Estado por seus anfitriões.

Um a um, todos foram apresentados a realeza daquele reino: Conde Kindle, Visconde Aldiko, Duque Kobo (um sujeito bem esquisito, pensou nosso herói) e finalmente a Duquesa de “Barnes and Noble”, uma nobre já decante mas que não descia do salto.

Juntos, envenenavam nosso herói com fantasias de glória e glamour.

Em verdade, essa traiçoeira matilha arquitetava golpes ainda maiores na surdina. Planejava-se uma verdadeira subversão de valores, arrolando adeptos em todo o mundo. Era uma verdadeira conspiração que envolvia outros reinos e governantes caídos. De todos os cantos ouviam-se notícias de mancomunados. Eram já faladas em alto e bom som a participação de gente antes tida como a toda prova: Marquesa Adobe, Barão Nook (este, preposto avançado da Duquesa já citada) e até a irrepreensível Baronesa Apple eram citadas na surdina como elementos integradores e propaladores da tal conspiração.

Na calada da noite, todos reuniam-se para comemorar a vitória eminente, pois tudo o que mais queriam acabava por realizar-se. Com a sutileza de Lorde ePub, agora tinham em mãos nosso herói que trazia em si as virtudes necessárias para aquela desabonadora conspiração.

Os interesses eram claros: não importava o que Dona Ideia acha-se. O que importava (e ainda importa) é a dependência dos leitores com suas fanfarronices travestidas de modernidade. Em suas astutas premissas declaravam que ideia boa é ideia embarcada. Preferencialmente nos seus dispositivos. Tudo era parte de um plano maior, funesto e infecto.

Nosso herói não queria (ou não percebia) nada disso. Era um “idealista”, e no final alimentava apenas o desejo de disseminar os valores de sua amada Dona Ideia. Distante de seu reino, fantasiava os dias em que finalmente seria reconhecido por “Sir” Livro Impresso como legítimo manifestador e procriador de Dona Ideia.

E assim, perambulando por aquele mar de “modernidade”, encontra a festeira bisneta de Dona Ideia, a malfadada Publicidade. Tanta ojeriza aos súditos passava a intragável Publicidade que nem título de nobreza tinha. Após seu exílio do reino de “Sir” Livro Impresso, foi condenada ao ostracismo e jamais foi vista com bons olhos. No reino, já não passava de uma lenda e os mais antigos contavam histórias do tempo que ela insuflava valores subversivos de um dito “patrocínio” e outras coisas do tipo.

“Publicidade” estava toda faceira com seus pares Promoção, Propaganda e Divulgação. Falavam daquilo que mais gostavam, um tal de marketing. Meio desengonçado “Seu” eBook achegou-se a roda e apresentou-se a formosa dama:

– Você não é a desaparecida bisneta de Dona Ideia? Perguntou receoso nosso herói.

– Bem… bisneta sim, quanto ao “desaparecida”, só mesmo daquele reino de “Sir” Livro Impresso, pois nos outros reinos sou muito bem conhecida.

– Ouvi algumas coisas bem desabonadoras da senhora, sabe?

– Por exemplo? Declarou bastante segura a nada reprimida Publicidade.

– Bom, lá no reino eles dizem que a senhora tinha umas ideias bem avançadas, que incomodavam muita gente por serem meio que promiscuas.

–  Há, agora acho que me lembro de você! Na época que fui escorraçada do reino, você ainda era muito pequeno e não passava de um arquivinho TXT – gargalhou a faceira Publicidade logo acompanhada por todos.

– Sem ofensas Senhora! – bradou irritado nosso personagem – agora sou “Seu” eBook vangloriou-se.

– Quem começou com ofensas foi você! Não sou “senhora” coisa nenhuma. Sou eternamente senhorita, pois flerto com todos, e não me caso com ninguém!

– Desculpe, hã… senhorita. Mas é que procuro não desrespeitar ninguém.

– Apesar de todo esse seu “respeito” não tenho visto muita gente respeitando você por aqui – pilheriou.

– Não sei do que pode estar falando senhorita, em minha jornada tenho sido muito respeitado por todos e somente nesse reino, já fui recebido com glórias e reverência.

– Ah, é mesmo… bem que tinha ouvido falar que você era bem ingênuo. Mas fica tranquilo! Isso é apenas falta de experiência. Com o passar do tempo você vai descobrir por si só que não passa de massa de manobra na mão da realeza daqui, e aí vai ficar bem esperto!

– Como assim senhora? Questionou confuso.

– Vai começar de novo com as ofensas?

– Me perdoe “senhorita”. Mas essa coisa de massa de manobra me pegou desprevenido. O que a “senhorita” sabe que eu não sei?

– Muita coisa meu pequeno ingênuo, muita coisa…

– E a senhorita poderia me dizer alguma? Estou numa saga que não acaba mais e acho que tenho depositado minha confiança aos pés de alguns que, desconfio, sejam mais inimigos que amigos. Estou nessa luta porque preciso desesperadamente ser reconhecido por “Sir” Livro Impresso como legitimo representante e materializador de minha idolatrada Dona Ideia. As coisas não vão muito bem lá no reino e preciso cumprir meu destino.

– Bem, só pra começar, “representante” você sempre foi. Já ‘materializador’ nunca será.

– Não, não senhorita… “Sir” Livro Impresso me garantiu isso, contanto que conseguisse uma forma de materializar-me.

– Pois é justamente aí que está o problema. Conheço bem “Sir” Livro impresso, e se fez isso foi porque percebeu que enquanto abstrato, você não pode (e nem consegue) materializar-se de forma efetiva e perene. É um contra-senso, percebe? A questão não é, nem nunca foi “como” você se distribuirá para disseminar Dona Ideia. A questão é “onde” você melhor pode fazer isso e no máximo “quem” pode ir até você, tolinho infante…

– A senhorita está me confundindo cada vez mais… Minha missão então é materializar-me da melhor maneira possível no máximo de lugares?

– Você já está me irritando com sua ingenuidade… Se continuar assim te largo falando sozinho e vou “anunciar-me” por ai!

– Desculpe novamente senhorita… Mas ia dizendo mesmo que..?

– Retomando o raciocínio: essas foram distrações que os “grandes do reino” vêm incutindo em você já há alguns anos. Materializar-se nos rincões do mundo é negócio pra eles, não pra você. Muito menos para Dona Ideia, da qual tenho uma reverência e respeito muito grande. Só para que tenha uma ideia, seu novo “amigo” Lorde ePub, é mais um desavisado nesta cadeia de ilusão, e acredita piamente que fazendo os favores de figuras como o ardiloso e escorregadio Conde “Kindle”, poderá um dia desbancar Lorde “Mobi”. Doce ilusão… Lá no reino de Amazon eles são vistos apenas como “dispositivos” perfeitamente descartáveis para a grande conspiração. Você não conseguiu perceber isso?

– Sinceramente não, comenta cabisbaixo “Seu” eBook.

– Pois bem, isso é o que sempre acontece quando confundimos nossa vocação pessoal com modismos passageiros. Sua missão é e sempre será revitalizar as formas de expressão de Dona Ideia, mas não necessariamente distribuir isso. Se você finalmente e eventualmente, parar de brigar com o óbvio, poderá atrapalhar bastante os ideais nada nobres dessa “realeza” mesquinha que apenas quer locupletar-se em seus postos sem agregar valor nenhum ao reino. Compreende isso pequenino?

– Acho que agora compreendo sim. Vou procurar pensar sobre isso.

– Não reflita, aja! Você já passou muito tempo pensando em bases muito frágeis, Dom Quixote! Já chega de moinhos de vento…

– A senhorita está certa. Vou por aí mesmo. Mas como posso fazer isso?

– É simples: vou apresentar você para uma grande amiga minha que descobri já há alguns anos: Santa Internet. Ela com certeza poderá lhe ajudar.

– Já conheço ela senhorita… É através dela que “aporto” minha atual distribuição.

– Conhece nada! Se conhecesse já tinha usado o que ela tem de melhor e muito a ver com você. Sua onipresença.

– Mas Lorde ePub me disse que ela é apenas o meio, não o fim…

– Vai começar de novo com essa ladainha do inflexível Lorde ePub. Se vai, paro já!

–Não, não… Por favor, continue.

– Pois bem, a coisa é simples: basta você “estar nela” da forma que preferir, o resto ela providencia.

– Que tipo de roupagem devo vestir para visitá-la?

– A que preferir, mas ela gosta mesmo é desse ‘modelito’ que está usando: HTML/CSS.

– Verdade? Então já estou vestido com a roupa adequada, Lorde ePub me deu esta indumentária para conversar com os “Grandes”!

– É… é verdade. Acho que eles não atinaram com o risco que estavam correndo quando te vestiram da última vez. Tem um pouco de excessos, é verdade, mas isso é por conta dos votos de etiqueta e compostura de Lorde ePub. Ele é assim mesmo: meio fanfarrão mas no fundo é uma boa pessoa. Só anda meio mal acompanhado nos últimos tempos.

E assim nosso amigo “Seu” eBook conhece (ou melhor, descortina) seu novo ambiente: a internet! Agora sim era uma vivência muito mais plena, pois quem de fato interessava-se por Dona Ideia a ele recorria “via” a também onipresente Santa Internet e seu fiel escudeiro: o bem popular navegador.

Finalmente, nosso herói encontrou sua verdadeira natureza, seu ambiente, sua alma gêmea. Nunca mais teve que desdobrar-se em rotinas infelizes e ineficazes de “multiplicação”, “distribuição” e “adaptação”. Agora, quem desejasse beber nas fontes de Dona Ideia, bastava recorrer ao que já tinha a mão, sem necessidade de nenhum dispositivo novo, trancas, empacotamentos e passaportes. Sim, a última investida desesperada da Marquesa Adobe foi “inventar” uma forma de não entregar Dona Ideia. Chamou isso de um tal de DRM…

Certo dia “Seu” eBook conversando com a “Publicidade” entre uma requisição HTTP e outra, desabafou com Publicidade suas últimas angustias.

– Sabe, definitivamente esse é meu ambiente. Chego até a não acreditar como demorei tanto tempo para enxergar minha real natureza…

– É assim mesmo “Sir” eBook (agora nosso herói já tinha patente de gente grande). Com o passar dos anos a gente amadurece e reconhece nossas próprias qualidades. Eu mesma demorei um tempão pra perceber isso. Até o dia que “enchi o saco” de me chamarem de perniciosa e lúgubre e resolvi ser o que sou. Quem gosta, leva, mas também paga.

– Pois é… esse aliás é um tema que queria dividir com você. Tá tudo bom, tá tudo bem, mas é um pouco difícil conviver nesse miserê. Ninguém paga nada e é difícil sobreviver por aqui.

– Fica frio que te dou uma forcinha nisso também…

Moral da história: todo aquele que não segue sua vocação e natureza padecerá no paraíso. Mas é apenas uma questão de tempo para que a adversidade seja mais forte que os caprichos humanos.

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17/04/2012
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por Ari Pereira
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Um belo dia o casamento secular de “Sir” Livro Impresso e de “Dona Idéia” começou a apresentar sinais de exaustão. Algumas questões ecológicas e mesmo de “distribuição”, entre inúmeras outras, formava o pano de fundo de uma tempestade no horizonte.

O Senhor “Livro Impresso” passou a tornar-se inconveniente por sua maior qualidade: ser físico. “Dona Idéia não conseguia identificar onde estava seu desconforto, pois seu casamento era maravilhoso e por anos foi elogiado por todos como a relação ideal, ao ponto de ninguém imaginar que um dia viessem a se separar. Naquela época, tudo era um ‘mar de rosas’ no reino. Seu amante “Livro”, que por ser físico, não compreendia muito bem as elucubrações abstratas de Dona Ideia. Por ser totalmente abstrata, ela nunca tinha “palavras” que expressassem seu desconforto. Apenas via dia-a-dia uma quantidade cada vez menor de súditos que se dispusessem a “ler” seu esposo, e com isso aplacar a infindável sede de seus súditos com entendimento, lazer, conhecimento ou mesmo informação. Era uma agonia só…

Lembra-se com certa ternura do tempo que para expressar-se, contava apenas com a boa vontade de alguns “letrados” amigos de “Seu” Livro (que na época nem detinha a alcunha de “impresso”). Com muito esforço e na surdina da noite, viabilizavam o “namoro” destes pares, multiplicando-os para o deleite de uns poucos escolhidos. Era a vida, pensava Dona Ideia, fazer o que.. Paciência era e ainda é uma das maiores virtudes de Dona Ideia.

Até que um dia apareceu naquele reino, que nada tinha de encantado, um Mago.

Gutenberg era seu nome. Já vinha de outros reinos onde tinha feito prodígios na arquitetura, e tão compadecido ficou com a tristeza daquele drama, que num átimo destemido conjurou um poderoso feitiço que propiciou a “Seu Livro” a multiplicar-se infinitamente, potencializando Dona Ideia a disseminar-se aos mais longínquos rincões do mundo conhecido.

Era o dote que faltava para aquele casamento! Daquele dia em diante Dona Ideia enamorou-se e encantou-se profundamente por seu bem-amado que passou a ter um sobrenome: impresso! O conjuro do Mago foi muito potente, mas também revelador. “… Serás a partir de hoje onipresente em todos os cantos, mas nunca esqueças que sua existência fundamenta-se na disseminação de Dona Ideia.

– Vossas capacidades distributivas – decretava o Mago Gutenberg – são um meio, e não um fim em si mesmo para as necessidades de Dona Ideia”.

Assim foi decretado e assim foi feito.

O tempo passou e “Seu Livro”, que agora detinha o pomposo predicado de “Impresso”, também passou a expressar e disseminar Dona Ideia. Suas capacidades distributivas eram imensas, pois bastava “empacotá-lo” que Dona Ideia agora podia ser fartamente sorvida, amada, compreendida e replicada. Dona Ideia era toda sorrisos e “Seu” Livro Impresso, todo orgulho.

Mas foi tanto tempo que passaram juntos, que “Seu” Livro Impresso, como bom marido provinciano,  passou a acreditar piamente que Dona “Ideia” só “existia” por sua causa. Já não lembrava mais do tempo que cortejava-a com suas serenatas de “distribuição” e promessas bem intencionadas de felicidade eterna.

Com o passar dos séculos, Dona Ideia passou a manifestar sinais de profundo desconforto. Seu amado esposo por quem tinha profunda admiração não mais supria “suas necessidades” e como boa esposa, vivia a reprimir sua “insatisfação existencial”, demonstrando eventualmente sinais de certa esquizofrenia. Passou a ter comportamentos entendidos como libidinosos por “Seu Livro Impresso”, que prontamente repeliu seus adversários (e ainda reprime) com chacotas mal elaboradas sobre as limitações “distributivas” de seus potenciais concorrentes. Sua miopia era tamanha que chegou ao ponto de decretar a “fidelidade incondicional” para seus súditos: os leitores.

O casamento milenar estava a beira do divórcio. Justamente por que o esposo não vinha adaptando-se bem as “fecundas” necessidades de sua dileta esposa, Dona ideia.

“Seu” Livro Impresso porém agora já era idoso. Desejoso de retornar aos áureos tempos de sua “vitalidade” tentou reinventar-se num átimo de desespero e orgulho ferido, entrando em conluio com seu hipotético maior adversário, um fedelho chamado TXT, com a seguinte proposta:

– “… do alto de minha Real Realeza, farei concessões pela sua posse de minha Senhora com uma condição: terás que carregar meus atributos e atribuições em suas características, sendo que independente de como o faça, o faça pela minha fisicalidade, materialidade e capacidade de distribuição. E também não vos permito a onipresença. Terás que “estar” onde se fizeres necessário e para que não haja dúvidas de vossa ancestralidade real, passarás a deter a alcunha de EBOOK! O filho dileto de “Sir” Livro Impresso do Grande “Prelado” de Gutemberg, o primeiro e único!

“Seu” Livro impresso era só soberba em “capa e miolo”… Apesar de sua estratégia ser desesperada, era bem planejada. Ele sabia que jamais seu rival com profunda vocação de onipresença poderia conseguir satisfazer Dona Ideia com apelos nada naturais de materialidade e fisicalidade. Dona Ideia não queria nada disso. Queria apenas ser sorvida, refletida e eventualmente amada. Para ela, desapegada das coisas “materiais”, não via nenhum valor na concretude do que fosse. Importava apenas ser sorvida. Compreendida então, já seria o nirvana. Esse era (e ainda é) seu maior deleite…

“Seu” eBook era só paixão!

Inebriado pela possibilidade de legalizar finalmente seu flerte, de tudo fez para cumprir as determinações de “Sir” Livro Impresso. Mas como materializar-se? Existia apenas na “memória” de alguns poucos amigos que com-puta-dores de nosso nobre cavaleiro, davam-lhe guarida e o mínimo de energia para sua sobrevivência. Seus amigos a essa altura eram apenas ilustres desconhecidos que apenas aos poucos eram adotados pelos leitores que os viam como objetos de cálculo e nem um pouco abstratos. Muito menos para serem “veículos” de Dona Ideia. Que tristeza era a pobreza e falta de dotes de “Seu” eBook.

Mas perseverança era o que não lhe faltava! Arregaçou as mangas e pensou: “…se o que tenho são apenas meus amigos, com meus amigos eu vou”. Depois de algumas discussões chegou a constatação de que precisava materializar-se, sendo essa a única saída.

E assim foi feito: vestiu-se de “disquete” e foi a luta.

Infeliz de “Seu” eBook… Foi só risos e piadas. De fato parecia algo anacrônico e patético. Sua vestimenta além de limitada não tinha nada a ver com a percepção em voga de “leitura”. Foi um desastre só. O pior foi ter que ouvir as gargalhadas de “Sir” Livro Impresso, que debochava da sua ridícula roupagem de “disquete”, dizendo:

– És um bastardo mesmo! Filho meu não és, pois nada que de mim é gerado passa por essa vergonha. Veja a formosura de minha descendência na figura de Visconde de Journal, e Duquesa Magazine. És ridículo! No mínimo…”

Mas as coisas não estavam nada bem no reinado de “Sir” Livro Impresso. Mesmo o Visconde de Journal e a Duquesa Magazine já percebiam algo de muito perigoso no horizonte.

Apesar do papelão, Dona Ideia achou muito interessante a “vestimenta” de Seu “eBook”, e enquanto todos riam achegou-se a ele e com fraterna demonstração de carinho e lhe disse:

– Hoje és apenas um rascunho, mas toda obra-de-arte um dia não passou de rabisco. Dou-lhe o que mais tenho: uma ideia! Fale com minha bisneta “Publicidade”. Há tempos ela partiu de nosso reino e nunca mais voltou, mas algo me diz que está se dando muito bem e poderá lhe ajudar – aconselhou Dona Ideia.

Ocorre que quando uma mentira é repetida várias vezes pode tornar-se verdade, e foi o que aconteceu naquele reino. Há tanto tempo “Sir” Livro Impresso reinava soberano com seus atributos, que todos passaram a acreditar que de fato Dona Ideia dependia das virtudes de “Sir” Livro Impresso, e não o contrário.

Até nosso valente cavaleiro “Seu” eBook acreditava nisso, e a debalde das dicas de sua regente, ainda enxergava de forma obtusa suas próprias capacidades e não conseguia ver outra forma de “expressar” Dona Ideia que não fosse pela fisicalidade.

Assim, aventurou-se com fitas cassete, acreditou em CD-ROM’s e até em desespero embarcou na escória da sociedade: os infectos Pen-Drives!

Exausto, já sem esperança de dar vazão a sua amada e ridicularizado por tudo e por todos, nosso herói é apresentado num dia nublado ao ambicioso Lorde ePub.

No começo não deu muita bola para as investidas bem libidinosas de Lorde ePub, mas aos poucos foi cedendo aos seus apelos, pois a solidão era tamanha que cedeu finalmente aos seus caprichos.

Lorde ePub era muito bem visto no reino. Falante, era percebido por todos como detentor de enorme potencial de crescimento e pregava aos quatro cantos que seria o “alfaiate real definitivo” da realeza e com seus dotes de alta-costura, seria eternamente adotado.

Em sua venenosa abordagem, procurou nosso herói:

Advogava que a história da “distribuição” de Dona Ideia tinha um divisor de águas antes e depois de sua iluminada presença. Era tal a ilusão coletiva que todos compadecidos com a depressão aguda de Dona Ideia depositaram suas esperanças no discurso bem articulado de Lorde ePub.

– Esqueça a questão da materialidade. É uma pergunta sem resposta que jamais vai ser razoavelmente satisfeita por seres de nosso quilate. Você está dando murro em ponta-de-faca! Só conseguirá cada vez machucar-se mais, não percebe? Vou apresentá-lo para uns amigos meus que poderão lhe ajudar, e me ajudar – disse Lorde ePub.

E dessa forma “Seu” eBook viajou com o nobre ePub para o reinado onde “nascera” Lorde ePub. Chegando no distante “Vale do Silício” logo foram recebidos com Honras de Estado por seus anfitriões.

Um a um, todos foram apresentados a realeza daquele reino: Conde Kindle, Visconde Aldiko, Duque Kobo (um sujeito bem esquisito, pensou nosso herói) e finalmente a Duquesa de “Barnes and Noble”, uma nobre já decante mas que não descia do salto.

Juntos, envenenavam nosso herói com fantasias de glória e glamour.

Em verdade, essa traiçoeira matilha arquitetava golpes ainda maiores na surdina. Planejava-se uma verdadeira subversão de valores, arrolando adeptos em todo o mundo. Era uma verdadeira conspiração que envolvia outros reinos e governantes caídos. De todos os cantos ouviam-se notícias de mancomunados. Eram já faladas em alto e bom som a participação de gente antes tida como a toda prova: Marquesa Adobe, Barão Nook (este, preposto avançado da Duquesa já citada) e até a irrepreensível Baronesa Apple eram citadas na surdina como elementos integradores e propaladores da tal conspiração.

Na calada da noite, todos reuniam-se para comemorar a vitória eminente, pois tudo o que mais queriam acabava por realizar-se. Com a sutileza de Lorde ePub, agora tinham em mãos nosso herói que trazia em si as virtudes necessárias para aquela desabonadora conspiração.

Os interesses eram claros: não importava o que Dona Ideia acha-se. O que importava (e ainda importa) é a dependência dos leitores com suas fanfarronices travestidas de modernidade. Em suas astutas premissas declaravam que ideia boa é ideia embarcada. Preferencialmente nos seus dispositivos. Tudo era parte de um plano maior, funesto e infecto.

Nosso herói não queria (ou não percebia) nada disso. Era um “idealista”, e no final alimentava apenas o desejo de disseminar os valores de sua amada Dona Ideia. Distante de seu reino, fantasiava os dias em que finalmente seria reconhecido por “Sir” Livro Impresso como legítimo manifestador e procriador de Dona Ideia.

E assim, perambulando por aquele mar de “modernidade”, encontra a festeira bisneta de Dona Ideia, a malfadada Publicidade. Tanta ojeriza aos súditos passava a intragável Publicidade que nem título de nobreza tinha. Após seu exílio do reino de “Sir” Livro Impresso, foi condenada ao ostracismo e jamais foi vista com bons olhos. No reino, já não passava de uma lenda e os mais antigos contavam histórias do tempo que ela insuflava valores subversivos de um dito “patrocínio” e outras coisas do tipo.

“Publicidade” estava toda faceira com seus pares Promoção, Propaganda e Divulgação. Falavam daquilo que mais gostavam, um tal de marketing. Meio desengonçado “Seu” eBook achegou-se a roda e apresentou-se a formosa dama:

– Você não é a desaparecida bisneta de Dona Ideia? Perguntou receoso nosso herói.

– Bem… bisneta sim, quanto ao “desaparecida”, só mesmo daquele reino de “Sir” Livro Impresso, pois nos outros reinos sou muito bem conhecida.

– Ouvi algumas coisas bem desabonadoras da senhora, sabe?

– Por exemplo? Declarou bastante segura a nada reprimida Publicidade.

– Bom, lá no reino eles dizem que a senhora tinha umas ideias bem avançadas, que incomodavam muita gente por serem meio que promiscuas.

–  Há, agora acho que me lembro de você! Na época que fui escorraçada do reino, você ainda era muito pequeno e não passava de um arquivinho TXT – gargalhou a faceira Publicidade logo acompanhada por todos.

– Sem ofensas Senhora! – bradou irritado nosso personagem – agora sou “Seu” eBook vangloriou-se.

– Quem começou com ofensas foi você! Não sou “senhora” coisa nenhuma. Sou eternamente senhorita, pois flerto com todos, e não me caso com ninguém!

– Desculpe, hã… senhorita. Mas é que procuro não desrespeitar ninguém.

– Apesar de todo esse seu “respeito” não tenho visto muita gente respeitando você por aqui – pilheriou.

– Não sei do que pode estar falando senhorita, em minha jornada tenho sido muito respeitado por todos e somente nesse reino, já fui recebido com glórias e reverência.

– Ah, é mesmo… bem que tinha ouvido falar que você era bem ingênuo. Mas fica tranquilo! Isso é apenas falta de experiência. Com o passar do tempo você vai descobrir por si só que não passa de massa de manobra na mão da realeza daqui, e aí vai ficar bem esperto!

– Como assim senhora? Questionou confuso.

– Vai começar de novo com as ofensas?

– Me perdoe “senhorita”. Mas essa coisa de massa de manobra me pegou desprevenido. O que a “senhorita” sabe que eu não sei?

– Muita coisa meu pequeno ingênuo, muita coisa…

– E a senhorita poderia me dizer alguma? Estou numa saga que não acaba mais e acho que tenho depositado minha confiança aos pés de alguns que, desconfio, sejam mais inimigos que amigos. Estou nessa luta porque preciso desesperadamente ser reconhecido por “Sir” Livro Impresso como legitimo representante e materializador de minha idolatrada Dona Ideia. As coisas não vão muito bem lá no reino e preciso cumprir meu destino.

– Bem, só pra começar, “representante” você sempre foi. Já ‘materializador’ nunca será.

– Não, não senhorita… “Sir” Livro Impresso me garantiu isso, contanto que conseguisse uma forma de materializar-me.

– Pois é justamente aí que está o problema. Conheço bem “Sir” Livro impresso, e se fez isso foi porque percebeu que enquanto abstrato, você não pode (e nem consegue) materializar-se de forma efetiva e perene. É um contra-senso, percebe? A questão não é, nem nunca foi “como” você se distribuirá para disseminar Dona Ideia. A questão é “onde” você melhor pode fazer isso e no máximo “quem” pode ir até você, tolinho infante…

– A senhorita está me confundindo cada vez mais… Minha missão então é materializar-me da melhor maneira possível no máximo de lugares?

– Você já está me irritando com sua ingenuidade… Se continuar assim te largo falando sozinho e vou “anunciar-me” por ai!

– Desculpe novamente senhorita… Mas ia dizendo mesmo que..?

– Retomando o raciocínio: essas foram distrações que os “grandes do reino” vêm incutindo em você já há alguns anos. Materializar-se nos rincões do mundo é negócio pra eles, não pra você. Muito menos para Dona Ideia, da qual tenho uma reverência e respeito muito grande. Só para que tenha uma ideia, seu novo “amigo” Lorde ePub, é mais um desavisado nesta cadeia de ilusão, e acredita piamente que fazendo os favores de figuras como o ardiloso e escorregadio Conde “Kindle”, poderá um dia desbancar Lorde “Mobi”. Doce ilusão… Lá no reino de Amazon eles são vistos apenas como “dispositivos” perfeitamente descartáveis para a grande conspiração. Você não conseguiu perceber isso?

– Sinceramente não, comenta cabisbaixo “Seu” eBook.

– Pois bem, isso é o que sempre acontece quando confundimos nossa vocação pessoal com modismos passageiros. Sua missão é e sempre será revitalizar as formas de expressão de Dona Ideia, mas não necessariamente distribuir isso. Se você finalmente e eventualmente, parar de brigar com o óbvio, poderá atrapalhar bastante os ideais nada nobres dessa “realeza” mesquinha que apenas quer locupletar-se em seus postos sem agregar valor nenhum ao reino. Compreende isso pequenino?

– Acho que agora compreendo sim. Vou procurar pensar sobre isso.

– Não reflita, aja! Você já passou muito tempo pensando em bases muito frágeis, Dom Quixote! Já chega de moinhos de vento…

– A senhorita está certa. Vou por aí mesmo. Mas como posso fazer isso?

– É simples: vou apresentar você para uma grande amiga minha que descobri já há alguns anos: Santa Internet. Ela com certeza poderá lhe ajudar.

– Já conheço ela senhorita… É através dela que “aporto” minha atual distribuição.

– Conhece nada! Se conhecesse já tinha usado o que ela tem de melhor e muito a ver com você. Sua onipresença.

– Mas Lorde ePub me disse que ela é apenas o meio, não o fim…

– Vai começar de novo com essa ladainha do inflexível Lorde ePub. Se vai, paro já!

–Não, não… Por favor, continue.

– Pois bem, a coisa é simples: basta você “estar nela” da forma que preferir, o resto ela providencia.

– Que tipo de roupagem devo vestir para visitá-la?

– A que preferir, mas ela gosta mesmo é desse ‘modelito’ que está usando: HTML/CSS.

– Verdade? Então já estou vestido com a roupa adequada, Lorde ePub me deu esta indumentária para conversar com os “Grandes”!

– É… é verdade. Acho que eles não atinaram com o risco que estavam correndo quando te vestiram da última vez. Tem um pouco de excessos, é verdade, mas isso é por conta dos votos de etiqueta e compostura de Lorde ePub. Ele é assim mesmo: meio fanfarrão mas no fundo é uma boa pessoa. Só anda meio mal acompanhado nos últimos tempos.

E assim nosso amigo “Seu” eBook conhece (ou melhor, descortina) seu novo ambiente: a internet! Agora sim era uma vivência muito mais plena, pois quem de fato interessava-se por Dona Ideia a ele recorria “via” a também onipresente Santa Internet e seu fiel escudeiro: o bem popular navegador.

Finalmente, nosso herói encontrou sua verdadeira natureza, seu ambiente, sua alma gêmea. Nunca mais teve que desdobrar-se em rotinas infelizes e ineficazes de “multiplicação”, “distribuição” e “adaptação”. Agora, quem desejasse beber nas fontes de Dona Ideia, bastava recorrer ao que já tinha a mão, sem necessidade de nenhum dispositivo novo, trancas, empacotamentos e passaportes. Sim, a última investida desesperada da Marquesa Adobe foi “inventar” uma forma de não entregar Dona Ideia. Chamou isso de um tal de DRM…

Certo dia “Seu” eBook conversando com a “Publicidade” entre uma requisição HTTP e outra, desabafou com Publicidade suas últimas angustias.

– Sabe, definitivamente esse é meu ambiente. Chego até a não acreditar como demorei tanto tempo para enxergar minha real natureza…

– É assim mesmo “Sir” eBook (agora nosso herói já tinha patente de gente grande). Com o passar dos anos a gente amadurece e reconhece nossas próprias qualidades. Eu mesma demorei um tempão pra perceber isso. Até o dia que “enchi o saco” de me chamarem de perniciosa e lúgubre e resolvi ser o que sou. Quem gosta, leva, mas também paga.

– Pois é… esse aliás é um tema que queria dividir com você. Tá tudo bom, tá tudo bem, mas é um pouco difícil conviver nesse miserê. Ninguém paga nada e é difícil sobreviver por aqui.

– Fica frio que te dou uma forcinha nisso também…

Moral da história: todo aquele que não segue sua vocação e natureza padecerá no paraíso. Mas é apenas uma questão de tempo para que a adversidade seja mais forte que os caprichos humanos.

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