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Eu Gosto de Papel

Hermida Notícias 1 Comment

Sério, gosto mesmo, e não há vergonha alguma nisso.
Não posso dizer que tenho essa coisa com cheiro de livro, nunca tive, afinal, sempre sofri de rinite. Mas, por que estou falando nisso?

-É, Antonio, do que você está falando?
-Eu? Não sei do que estou falando, do que você está falando?

Na verdade, estava falando disso:

Vargas Llosa diz que ‘escrever para os tablets banalizará a literatura’

Quem sou eu para discutir com ele, mas, vejam bem, do jeito que foi colocado na reportagem, soou raso e elitista, todavia, não dá pra excluir a possibilidade de que os recortes soltos, usados na matéria, não exprimam muito das intenções do autor.

O que poderia ser uma “literatura para tablets”? Literatura não linear? Integração de multimedia a textos literários (ou vice-versa)?
Não há como generalizar, e se tem algo que pode ser dito a favor de eBooks é a possibilidade que eles proporcionam para o aumento da bibliodiversidade. Autores que não seriam impressos por conta dos custos envolvidos na esteira de produção podem ser olhados de outro jeito por um editor.

Por si só, isso já gera/aumenta a possibilidade de criação e manutenção de pequenas constelações de autores, leitores e o pequeno nicho que circunda um determinado micro-universo.

De todo modo, Dickens não é menos Dickens por estar sendo lido em um aparelho eletrônico, ou é?

Eu gosto de ler em eReaders, detesto ler em telas de tablets e computadores, creio que os tablets, meus olhos cansam e sempre acho que eles acabam figurando como aquela tia que fica perguntando coisas para você ao longo de uma leitura. Sim, isso mesmo, aquele tipo de tia que tem um detector de catarse sempre ligado para te interromper no momento-chave de um texto… e aí, já viu, o momento passou, a catarse não vai voltar. Imagine se eu, por exemplo, num desses momentos, recebo um pop-up qualquer de novo e-mail ou gtalk. Provavelmente ia querer jogar o tablet no chão (como eu faço com livros quando sou interrompido pelo telefone). Claro que eu não jogaria o tablet no chão, dói no bolso, melhor lidar com a frustração, treinar a paciência… Mas eu estou divagando. Foco, vamos lá.

O que temos hoje é uma quantidade imensurável de “conteúdo” (e acabei de ser elitista colocando essas aspas ali), por exemplo, meu blog, não é grande coisa, mas vai passar no filtro quando você estiver buscando por “e-book + dickens” (já testei, passa mesmo). Outro exemplo é a indústria fonográfica (e a indústria fonográfica sempre acaba servindo de paralelo, embora eu evite essas comparações…), bem, o outro exemplo é: tenho mais de 10000 músicas no meu computador e nunca estou com vontade de ouvir nada do que está visível. Coloco no shuffle  e vou passando.  Com livros isso é mais complicado, concordam?

A questão é: mesmo que você não seja muito criterioso ou exigente, sempre vai ter mais conteúdo que não vale a pena do que um conteúdo que atinja suas necessidades mínimas e, nesse sentido, concordo que existe uma banalização que se dá por falta de filtro.

Mas, quem poderia deter um filtro sobre algo tão pessoal quanto é o gosto de uma pessoa? Ainda se tratando de uma relação tão pessoal quanto a leitor-autor (isso falando de literatura, vamos lá, o mercado editorial não gira em torno de literatura, embora goste de passar a imagem sacra que os livros detêm).

Todavia, falando de textos literários, autores teriam que cativar seus leitores logo de cara, nada de esperar  1/3 do livro para coisa começar a fluir. Isso porque, basicamente, a abundância de conteúdo aumenta a descartabilidade gerada, o refugo, por assim dizer. TEMOS SACOLAS PLÁSTICAS EM EXCESSO!

Voltando, o tempo também está contra o autor: o leitor precisa encontrar algo para ler, algo que esteja à mão, mas tem coisas demais ao alcance da mão hoje em dia…

Acontece, gente amiga, que isso não é um problema da literatura em si, é um problema da quantidade e facilidade para produção e disponibilização de conteúdo que a internet trouxe. Lembremos: o ideal da internet era democratizar o conhecimento, libertar-nos, embora tenha, principalmente, facilitado o acesso à pornografia infantil e todo tipo de coisa.

De novo, o mesmo se passa com a música, hoje mesmo estava buscando por bandas “novas” e ainda não consegui ouvir 1/5 do que resolvi procurar dentro de um estilo bem específico… Decidi continuar ouvindo Warren Zevon, Nick Cave e Rolling Stones.

Para fechar a conta (e eu poder ir embora), o caso é que “literatura para tablet” é uma ideia um pouco fantasiosa, ao menos na minha cabeça, ao menos nesses moldes rasos, exatamente como quando tentaram vender a ideia de tweetiteratura. Por favor, bom senso… bom senso e… CALMA. Calma é importante, sempre digo isso. Alguém acreditou que a tweetiteratura  ia durar mais que alguns meses?

Devemos pensar nas modificações de abordagem para gêneros literários?

Sim, claro que devemos, oras! Dentro da literatura, creio, essa seja a fronteira mais complicada de delimitar, justo por conta da própria natureza e composição dos gêneros: eles metarfoseam-se, fundem-se, podem aparecer e desaparecer por conta de uma tecnologia, suporte ou formato. Creio, todavia, que certos textos são reflexos tão nítidos de um tempo, sociedade ou condição humana, que tornam-se atemporais, adentram o imaginário universal* e tornam-se versões particulares de um todo partilhado. Convenientemente, enquanto escrevo essas pobres linhas, acabo de ver  esse artigo no REB.

Trata, justamente de uma versão para o iOS de Frankenstein. Olhem o vídeo e me digam o quão prejudicial para literatura ele parece…

Actum est, comites!
(That’s all, folks) 

*Não confundir literatura universal com literatura ocidental: nos “Clássicos da Literatura Universal” não tem nenhum japonês, por exemplo, basicamente europeus, isso sim. Isso é um crítica.

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Comments 1

  1. “Todavia, falando de textos literários, autores teriam que cativar seus leitores logo de cara, nada de esperar 1/3 do livro para coisa começar a fluir. Isso porque, basicamente, a abundância de conteúdo aumenta a descartabilidade gerada, o refugo, por assim dizer.”

    Parece que foi exatamente isso que o Vargas Llosa quis dizer.

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