Kemel Zaidan

Livre Acesso: Gutenberg Digital

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A crescente digitalização das mídias, que já abalou o mundo da música e do cinema, promete agora mexer também com as estruturas de um negócio que sofreu pouquíssimas mudanças desde que foi criado há 500 anos: o mercado editorial. Assim como ocorreu anteriormente em outras áreas da produção cultural, essa tendência frente à digitalização trará muitos desafios: qual será, por exemplo, o papel das bibliotecas frente a uma digitalização massiva dos conteúdos impressos? Uma vez que qualquer um pode ter sua própria biblioteca em um disco rígido de última geração, é de se pensar que as bibliotecas terão que reinventar seu papel nesse mundo que está por vir.

Mas além de desafios, essas mudanças poderão trazer também inúmeras possibilidades a serem exploradas. Imagine você que a situação descrita acima é plenamente factível, não se tratando de uma mera figura de linguagem. Tecnicamente, é possível colocar todos os aproximadamente 26 milhões de livros da maior biblioteca do mundo, a Biblioteca do Congresso dos EUA, em um disco rígido de 2TB de dados. Basta-se para isso que todo o material seja digitalizado.

Se essa tendência realmente se concretizar, é possível que ela venha a ter um impacto ainda mais profundo do que ocorreu anteriormente em outras áreas, isso porque os livros são até hoje, nosso principal instrumento para preservar a história, educar e difundir nossa cultura. Uma mudança em algo tão enraizado histórica e culturalmente certamente trará desdobramentos em uma série de aspectos de nossa vida social.

Mas para que possamos usufruir dessas benesses teremos que colocar o interesse coletivo acima de eventuais interesses comerciais e corporativos. Isso porque atualmente há todo um esforço para fazer com que o livro digital herde as mesmas características restritivas de seu equivalente em papel, contrariando assim a própria natureza do digital.

O responsável por tal proeza é o DRM (Digital Rights Management, ou gerenciador de direitos digitais) uma tecnologia criada para limitar as liberdades de um proprietário de livro digital. A partir de seu uso, é possível restringir a quantidade de computadores em que você poderá ter acesso ao arquivo, se poderá ou não lê-lo em um leitor digital e até mesmo impedir você de emprestar seu livro para outra pessoa.

Se for utilizado, as vantagens do livro convencional podem passar em muito as de um livro digital, visto que o livro de papel, uma vez adquirido, nada o impede de fazer o que quiser com ele, inclusive emprestá-lo para quantas pessoas tiver interesse e por quanto tempo considerar necessário. Ou seja, tal tecnologia não faz sentido algum.

Nos exterior, há editoras que respeitam a inteligência do leitor e vendem eBooks sem DRM. Se no Brasil já é difícil encontrar alguém disposto a vender eBooks, o que dirá de alguma opção que respeite a sua liberdade enquanto leitor. Isso porque as editoras brasileiras ainda não acordaram para esta nova realidade: além do número de títulos disponíveis ser irrisório, os preços estão pra lá de absurdos. Nos EUA, a imensa maioria dos eBooks custa até 10 dólares, com muitas ofertas abaixo dos 3 dólares. Via de regra, um livro digital nos EUA custa no máximo um terço do preço da versão impressa.

Já no Brasil a situação é inversa. É possível encontrar eBook custando mais caro do que no papel, sendo que os valores giram em torno de 60% a 75% de seu equivalente físico. Um disparate! De certo que os custos de produção brasileiros não são iguais aos americanos, até porque o volume das vendas por aqui é muito menor. No entanto, isso ainda é pouco para explicar tamanha discrepância.

A verdade é que, ao invés de cobrar um preço acessível para disseminar o formato e criar um mercado para os livros digitais, as editoras brasileiras estão mais interessadas em ampliar suas margens de lucro. Esquecem-se de que nesse novo cenário competem diretamente em escala global, sendo que muitas vezes pode ser mais vantajoso ao consumidor adquirir seu eBook no idioma original, de uma editora em outro país, a ter que se submeter a preços como esses. Nessas condições, sai mais barato ler os autores estrangeiros do que a literatura nacional. Para a nossa sorte, vivemos em um país onde apenas uma pequena parcela da população é fluente o suficiente para ler em um idioma estrangeiro.

Enquanto perdemos a chance de finalmente erradicarmos o analfabetismo em nosso país e de criarmos enfim uma nação de leitores, esperamos pacientemente que um gigante multinacional, tal qual a Amazon, aterrisse por aqui com milhões em investimentos e tome de uma só vez o mercado que estamos fazendo questão de ignorar; o que irá reservar para nós, mais uma vez, a lanterna da vanguarda tecnológica. Ah, se Gutenberg ao menos tivesse sido brasileiro…

por Kemel Zaidan, editor da revista Linux Magazine, Ubuntu Member, coordenador do Ubuntu-SP e editor na Linux New Media do Brasil. Artigo publicado originalmente no Jornal Corporativo. Foto: Divulgação

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