O livro impresso está virando coisa de artista?

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Características como a praticidade, portabilidade, economia, reprodutibilidade e suporte à transmissão do conhecimento, que fizeram do livro impresso o meio ideal de comunicação por 400 anos, estão sendo herdadas pelos eBooks. Enquanto a adoção avança aos poucos, o hábito de folhear as páginas ainda tem o seu espaço no gosto dos leitores. Mas e depois? O que vai sobrar para o impresso?

Não faltam escritores e artistas da retaguarda para louvar o valor do papel. Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard, é categórico ao introduzir seu livro “A Questão dos Livros”: “este é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa, seu passado e seu futuro”. Roger Chartier (“A Aventura do Livro”) também é conservador e cético: “apresentam-nos o texto eletrônico como uma revolução. A história do livro já viu outras!”.

Em uma reportagem do The New York Times, reproduzida pela Folha, o artista norte-americano Ed Ruscha se orgulha de não ter qualquer contato com tecnologias móveis, ou sequer um computador. Ele produz obras ao estilo conceitual “livro do artista” (“livre d’artiste”) – mas em vez do luxo habitual dessas edições, seu estilo é criar produtos fáceis de fabricar, e com um preço acessível.

Artistas têm uma preocupação minuciosa com o seu trabalho único. No livro impresso, as imagens precisam ter alta resolução, o tipo do papel influencia diretamente no conteúdo, a capa explora pelo menos três sentidos para comunicar uma mensagem. Um livro pode ser uma perfeita obra de arte se transmitir bem seus conceitos dentro dessa ampla variedade de “aplicativos” naturais.

O digital é diferente: ubíquo, econômico, portátil, interativo, pretensamente universal e nem um pouco original – pelo menos até que inventem uma patente criando a “primeira cópia” de um eBook. A sua adoção cresce ano após ano – basta avaliar os resultados das empresas sobre a venda de conteúdo digital. Não pode virar peça de museu ou ser exposto em galerias. E, virtualmente, os bits são eternos, ao menos enquanto o hardware durar.

A comunicação que o livro impresso proporciona, por outro lado, jamais poderá ser emulada no meio digital. Manuscritos encontrados em algum túmulo da antiguidade são uma fonte de diálogo entre o presente e o passado, uma ponte que só pode ser transposta por um suporte que seja fiel ao conteúdo. O digital encara essa contradição: os bits não se desgastam, mas um comando pode apagar um livro digital da memória, não importam quantas cópias tenham sido vendidas. É só lembrar do que a Amazon fez com os seus leitores em 2009, bancando o Big Brother. Talvez daqui a dois mil anos, historiadores encontrem um servidor com informações sobre a antiga sociedade – mas quem irá garantir a integridade dos dados?

O próximo passo de sucesso dos livros digitais será dado quando as editoras e plataformas pararem de criar simulacros do mundo real para tablets e investir nas principais características do virtual. Em “A Nova Desordem Digital”, David Weinberger fornece uma interpretação interessante acerca do momento que estamos atravessando: na primeira ordem da ordem do conhecimento, organizamos as coisas em seu devido lugar, de maneira compartimentalizada. Na segunda ordem da ordem, criamos formas de representação para localizar e recuperar essas informações armazenadas – como um catálogo de fichas.

Na terceira ordem da ordem, temos a miscelânea: todo o conhecimento em um repositório aparentemente desorganizado, mas com ferramentas de recuperação tão eficientes que tudo pode ser achado em segundos, e a informação se torna tão dispersa que rastrear sua origem é impossível. É o mundo da distribuição instantânea, dos torrents, do ctrl+c/ctrl+v, da produção colaborativa, do crowdsourcing. “A ordem da miscelânea está transformando não apenas os negócios – ela está transformando nossa visão de como o mundo está organizado e de quem consideramos autoridade para determinar a melhor forma de fazê-lo”. Esse é o potencial represado atrás dos velhos modelos de negócios. É uma lógica que subverte as patentes e copyright.

Quanto aos livros físicos, eles permanecerão como fiéis e impassíveis soldados britânicos. Quem souber utilizar todo o seu potencial para comunicar uma mensagem, terá nas mãos um instrumento eficaz, com cheiro, cores, formas e texturas. Mesmo assim, o livro físico é incapaz de migrar para a terceira ordem, a não ser como uma fiel representação digital. A lógica do códice, introduzida há um milênio para substituir o uso de papiros e peles, permanecerá sendo a sua alma. No livro, os artistas têm um excelente suporte para trabalhar livremente toda a sua subjetividade.

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