[Atualizado] Piratas Financiam Cópias iIlegais Com Doações de Leitores

Eduardo Melo (Simplíssimo) Autores, Ebooks 6 Comments

Publicamos recentemente uma lista dos eBooks mais pirateados no mundo, que me fez pensar: quais seriam os livros mais pirateados no Brasil? A nossa editora, Stella Dauer, abraçou a missão de descobrir. Ela entrou em contato com os sites brasileiros que distribuem livros ilegalmente… e foi muito, muito além de uma lista dos livros brasileiros mais pirateados. Stella publicou uma matéria reveladora, após entrevistar dois responsáveis por sites de pirataria de livros digitais do Brasil, que expuseram suas ideias sobre compartilhamento de livros e como colocam isso prática – com o financiamento dos leitores. Vou comentar aqui os trechos que considerei mais interessantes.

Esta semana estamos discutindo a pirataria de ebooks no Brasil. Veja também:

“Não prejudicamos a indústria do livro”, dizem sites de download
Os 5 ebooks brasileiros mais pirateados em dezembro de 2011
Papo no Twitter: O Que o Levaria a Não Piratear um eBook?

Há todo um discurso, uma ideologia, que permeia as palavras e ações dos piratas. Notamos claramente a tentativa de justificar aquilo que, para muitas pessoas, seria considerado pura e simplesmente roubo.

Olha, não nos vemos como pessoas que prejudicam a indústria de livros, os chamados “Piratas”, mais sim como divulgadores de conteúdo. Explico: Atingimos uma parcela de pessoas que normalmente não compra eBooks ou mesmo livros físicos, mas ao ter contato com esse conteúdo se interessa e acaba comprando legalmente. Aí, talvez explique-se o porquê de existirmos: oferecemos algo que as editoras/varejistas não fazem por uma estratégia errada de negócios aqui no Brasil. Para o usuário final o que importa é a facilidade de acessar o conteúdo que ele quer, de forma instantânea, coisa que não vemos em nenhuma das lojas que existem no nosso território. Talvez só a Amazon já faça algo parecido.

Pessoalmente, eu até acredito que alguém possa comprar a versão impressa de um eBook depois de ter contato com um eBook pirata (existem casos, afinal). Mas comprar o eBook “original” depois de ter baixado o pirata, é bem menos provável. Afinal, se para o usuário o que importa é facilidade e instantaneidade, como diz Exilado, qual o sentido de alguém passar trabalho para comprar o mesmo arquivo?

Os responsáveis pelos sites acreditam preencher lacunas do mercado regular de eBooks:

“O site surge da necessidade que existe hoje, onde uma parcela do público deseja uma coisa e editoras e varejistas estão oferecendo outra. Nosso objetivo é oferecer material inédito ou há muito esgotado com QUALIDADE e de forma GRATUITA. Qualidade essa em falta em muito material disponível para compra hoje.” afirma Exilado, do site ePubr.

Já no caso do iOS Books, o objetivo é mais voltado para os usuários de produtos Apple e da falta de uma loja oficial de livros da empresa no Brasil. Matheus explica: “A iBookstore não contém uma variedade de livros em português, e foi a partir disto que veio a idéia de manter um site de downloads de livros para aquelas pessoas que passaram pelo mesmo problema [não achar livros digitais para seus Tablets].”

Convenhamos que são argumentos fracos. A iBookstore pode até não ter (ainda) livros em português à venda, mas não é o único meio que um usuário do iPad tem para adquirir livros. Existem aplicativos, de várias livrarias nacionais, através dos quais um usuário do iPad pode adquirir e ler eBooks nacionais. E dos 5 eBooks mais baixados no site ePubr, 3 deles já possuem versões em eBook à venda, nas principais livrarias, em arquivos que podem ser lidos no iPad. Não dá para afirmar que as editoras não oferecem o produto, porque ele está à venda.

Por outro lado, é difícil alguém discordar da dificuldade atual para comprar e baixar os livros digitais em nossas livrarias – explicação de Exilado para a existência do seu site. E, de fato, esta costuma ser uma das principais reclamações que ouço, nos cursos que ministro pela Simplíssimo. O processo é intrincado, difícil até para quem tem familiaridade em comprar pela Internet e usar aparelhinhos.

Exilado afirma que o material disponibilizado no ePubr não é ilegal. “Compramos todo o material disponível no site, através de sebos, sites de editoras e redes varejistas. Por isso temos o sentimento que não estamos ‘fazendo algo ruim’ para os autores e editoras, pois além de divulgar os livros compramos grandes quantidades todos os meses.”

Nada justifica que alguém se aproprie do conteúdo alheio, pelo qual a editora paga caro e investe para compor e produzir um livro, e saia por aí distribuindo de graça para quem quiser. Mesmo tendo comprado o livro em formato impresso ou eBook. Isso não dá direito a sair por aí, copiando e distribuindo geral. Argumentar que um site pirata compra “grandes quantidades” de livros, beira o deboche.

A estrutura organizada da pirataria:

Preços baixos e excelente atendimento

Chama a atenção o grau de organização a que chegaram os sites de download de livros. O fenômeno em si não é original. Existem comunidades de usuários que se organizam para piratear TV por satélite. No caso dos livros, é bem parecido. Uma pessoa, ou um pequeno grupo, lidera a iniciativa de disponibilizar livros para download. Só que o processo vai além deste pequeno núcleo: os visitantes dos sites financiam a aquisição de um original, para que o site disponibilize os livros – que são escolhidos pelos próprios visitantes. O que a Stella Dauer identificou, ironicamente, como uma “compra coletiva de livros”.

No iOS Books, há inclusive uma campanha de compra coletiva de livros, para que mais pessoas possam ter acesso a conteúdo. Todo mês, uma votação é realizada no site, seguida por uma arrecadação de dinheiro. No final do mês, o livro mais votado é adquirido, digitalizado (ou o DRM é retirado) e colocado no ar. “Em nossa primeira arrecadação, conseguimos mais de R$200, o que nos possibilitou pagar até a sexta edição da compra coletiva de livros. Apesar de ser muito trabalhoso, até agora está funcionando perfeitamente.”

“Temos vários e vários pedidos de todas as áreas, mas para ser mais especifico, o material didático (área de medicina, direito, etc) é o mais pedido.” explica Exilado.

Muitas pessoas admiram o grau de organização deste tipo de iniciativa “alternativa”. Leitores que pagam piratas, para que estes lhes forneçam livros de qualidade, sem dificuldades técnicas e a custo reduzido. É de se admirar mesmo. Por que estes mesmos leitores não pagam as editoras para obter a mesma coisa? Ou as livrarias? Somos forçados a reconhecer que não há editora, no Brasil, que ofereça as mesmas condições que os piratas oferecem: atendimento focado nas necessidades do leitor; uma pessoa com quem o leitor possa falar diretamente, sobre um livro desejado; acesso muito fácil e simplificado ao livro digital; uma comunidade de pessoas reunidas com interesses comuns por um determinado assunto. Os piratas conseguem isso. Por que as empresas não conseguem?

Nós podemos passar semanas discutindo as razões, que vão variar de empresa para empresa. Eu apostaria fichas em um motivo: os piratas tem paixão. Como a Stella observou, consideram que piratear livros é um serviço de utilidade pública, algo para o bem geral e comum da sociedade. Estão redondamente enganados, mas toda paixão é cega e ninguém irá convencer um pirata que uma cópia, cem cópias, mil cópias são nocivas. As editoras, as livrarias, não passam para as pessoas a mesma paixão, salvo as raras exceções. Os SACs, a automatização, o tratamento uniforme e indiferenciado a todos os leitores, desumaniza as empresas do livro. Os leitores esquecem que por trás das páginas que leem, pessoas trabalharam, autores escreveram, e todos dependem do resultado financeiro daquele esforço coletivo.

Ao invés de sair caçando os piratas, as vítima da pirataria (atuais e potenciais) deveriam parar e observar como a pirataria se processa e organiza. É preciso conhecer o inimigo, para derrotá-lo. É chavão, mas é verdade. Os piratas parecem conhecer muito bem os defeitos das editoras.

[Atualização] Para deixar absolutamente claro, sou contra a pirataria e a distribuição indiscriminada do conteúdo alheio, sem autorização e sem direito. Editoras e livrarias suportam um prejuízo enorme com isso. As pessoas que incentivam a pirataria devem ser responsabilizadas por isso. A lei é para todos. Se eu visse meus livros nestes sites, daria um jeito de perseguir e acabar com eles, sem dó nem piedade, mas com inteligência. As únicas piratarias que eu admitiria, seriam no estilo Paulo Coelho: autopirataria, pensada e planejada em prol de um objetivo de divulgação da marca e para eliminar os outros piratas que já lucravam com o trabalho; e aquela para divulgar um livro ou um autor totalmente desconhecido, possivelmente um dos raros casos em que a pirataria pode trazer algum benefício financeiro direto, como no caso do livro Go the Fuck to Sleep.

Para publicar seu livro em ebook ou impresso, nas principais livrarias online, conheça o serviço de publicação da Simplíssimo. Nossos números são difíceis de bater: desde 2010, a Simplíssimo comercializou mais de 1 milhão de exemplares e publicou mais de 1.000 ebooks e livros impressos. Veja como funciona a publicação para seu livro, aqui.

 

Simplíssimo[Atualizado] Piratas Financiam Cópias iIlegais Com Doações de Leitores

Comments 6

  1. Excelente artigo. Ontem eu fui visitar os 2 sites, não os conhecia. Fiquei impressionado com a qualidade do serviço dos caras. Acho (acho!) que alguns sites de editora e/ou livraria nem chegam a ter aquela qualidade, fotos grandes, espaço pra comentários dos leitores, etc.
    Concordo com vc que o combate não é reprimindo oque eles fazem, mas fazendo melhor. O preço grátis não dá pra seguir (exceto em alguma promoção temporária) mas um preço baixo que as pessoas considerem justas (mesmo que não seja o preço desejado pelas editoras) deve fazer com que muitas pessoas paguem e com o passar do tempo, crie uma cultura diferente, como de certa forma está sendo criada com musicas e games.

    Eu fiquei com 2 duvidas navegando pelo site deles ontem, gostaríamos saber a opinião dos demais: a 1ª com certeza tem uma resposta pronta e técnica, eu que a desconheço: pq sebos não são considerados piratas se vendem livros que com certeza tiram clientes das editoras?
    E a 2ª dúvida: no caso de um HQ que já saiu das bancas, baixar o arquivo digitalizado é pirataria também (eu seimque no sentido clássico claro que é), uma vez que ela não gera mais lucros à editora que a lançou e não está disponível pra venda (exceto num sebo talvez) caso alguém queira comprar? Eu vi lá gibis antigos do cebolinha e Mônica, entre outros, dai a pergunta.

    Abraços!

    1. Olha, a primeira é clara, sebos não são considerados piratas pois o livro já foi pago para a editora e o autor em algum momento.
      É o mesmo que eu comprar um livro e dá-lo de presente para alguém depois… Pelo menos na minha impressão.
      Quanto a sair das bancas… Já me perguntei isso também com seriados (seriados que não passam aqui, nem tem os DVDs aqui, é imoral fazer download? Pois ilegal seria de qualquer maneira)… EU, pessoalmente, acho que não deveria ser…. Mas daí são outros 500.

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  4. Eu concordo com vc, mas no argumento do Sebo, fica a brecha de que uma pessoa que compra o livro digital e distribui num site também já pagou pra editora. Eu queria conseguir separar as 2 coisas claramente.

    No 2º item, penso o mesmo.

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