3 motivos para a Saraiva vender tão poucos ebooks

Eduardo Ebooks, Mercado, Notícias Deixe um comentário

Semana passada soubemos, pela Folha, que a Livraria Saraiva vendia “1 milhão de ebooks por trimestre”. Este número surpreendente teve vida curta, pois logo a Saraiva corrigiu a informação: o correto era “R$ 1 milhão por mês com ebooks”.

A diferença é brutal. Significa que são vendidos mensalmente, na prática, algo em torno de dezenas de milhares de exemplares. É muito pouco para a maior e mais tradicional livraria do Brasil.

Este desempenho pífio se deve, em parte, à tecnologia arcaica ainda usada pela Saraiva para receber os livros das editoras. Há três problemas principais que são críticos, e realmente dificultam a vida da editora para colocar seu livro diretamente na Saraiva, sem depender de uma distribuidora. Posso falar sobre estes problemas, pois a minha empresa envia ebooks para a Saraiva desde fins de 2010. E desde aqueles tempos, o sistema usado para receber os livros é o mesmo, com raras melhorias.

1) Os ebooks nunca entram online automaticamente

Colocar um ebook no ar, na Livraria Saraiva, não é um processo automático.

Quando cadastramos o ebook no sistema, individualmente, ele nunca entre no ar de forma automática – como aconteceria em qualquer outra livraria online do porte da Saraiva (e até menores). Depois de cadastrar a obra, é preciso mandar um email para a equipe da livraria e pedir que liberem o livro. Isto está acontecendo sistematicamente, de uns meses para cá. A equipe da Saraiva nunca deu explicação para este problema. Apenas para constar, os livros que enviamos passam pelo ePubcheck antes de serem enviados, e nunca tivemos feedback de erros nos arquivos. É um mistério.

Imagine ter que mandar um email toda vez que você coloca um livro no ar? É totalmente inviável.

2) Na Saraiva, você só pode enviar dados e arquivos via navegador!

Incrível, mas você só consegue cadastrar e enviar arquivos dos livros via browser! Coisa da idade da pedra. Em 2010, 2011, ainda era aceitável. Em 2016, é complicado.

Todas as concorrentes, Apple, Kobo, Amazon, Google, distribuidoras (como a Bookwire), permitem de algum modo o cadastramento das obras através de um protocolo chamado Onix — um padrão internacional para transmissão de metadados de forma mais automatizada. Algumas destas lojas também aceitam o envio dos metadados em planilhas de Excel. Qualquer destas alternativas, permite um processo muito mais ágil e rápido de cadastramento de dados.

Quanto aos arquivos em si, ebooks e capas, na concorrência estes podem ser transmitidos por FTP, uma tecnologia antiga, prática e segura para transmitir grandes quantidades de arquivos numa tacada só. Ou um de cada vez, conforme a preferência do freguês.

Na Saraiva, o procedimento para cadastrar ebooks em lote exige toda uma mão-de-obra: é preciso usar um formato XML específico da Saraiva, que não é utilizado por nenhuma outra loja. Os arquivos dos ebooks e capas, precisa ser compactados em um arquivo .zip, para então serem enviados pelo browser! Ou seja, você não pode programar um computador para fazer o trabalho, você é obrigado a manter uma pessoa na frente do computador só para isso. É um custo extra, de tempo e mão-de-obra, para fazer algo que nas concorrentes é muito mais simples, prático e menos custoso.

3) A Saraiva oferece ferramentas que, adivinhe…

Todos os ebooks enviados para a Saraiva precisam vir acompanhados de uma amostra grátis. Esta amostra deve ser produzida pela própria editora. O sistema da Saraiva disponibiliza uma ferramenta que cria automaticamente esta amostra grátis.

Só que não funciona. Com dezenas de arquivos diferentes, tudo o que obtive da ferramenta até hoje foram mensagens de erro. O sistema nunca me retornou uma amostra grátis. E a parte mais interessante, é que a Saraiva fornece um “template” de ebook para ser usado como parâmetro para a estilização dos ebooks enviados para a plataforma. Nem mesmo para este arquivo, que é o template da própria livraria, a ferramente consegue criar uma amostra grátis.

Sem falar que, em outras lojas, esta amostra é criada de forma automática.

Também é oferecido um verificador online dos arquivos — o ePubcheck. Este também nunca funcionou, o site sempre retorna com um erro.

A propósito, tudo o que comentei acima, foi informado ou comentado com a equipe de livros digitais da Saraiva, semanas, meses e até anos atrás, por email. O trabalho competente e dedicado dos profissionais da Saraiva seria muito facilitado, com a atualização da tecnologia e a automatização de certos processos, como ocorre nos demais concorrentes com o porte da Saraiva.

Por que não uso um distribuidor para enviar livros à Saraiva

Enfim, estes problemas de tecnologia impedem a minha empresa, e certamente outras editoras também, de colocar na Saraiva uma enorme quantidade de ebooks que já estão à venda em outras lojas. Se a Saraiva dá tanto problema, por que insistir?, vários colegas questionarão. Afinal, poderia utilizar o serviço de um distribuidor, como a Bookwire, e colocar os ebooks na Saraiva sem stress.

Reconheço que há muitos benefícios de se usar um distribuidor, como a praticidade, economia de tempo, etc. Porém, o sistema da Saraiva guarda uma grande vantagem sobre as distribuidoras: os relatórios de vendas são fáceis de visualizar e filtrar, e fornecem dados mais atualizados que os de qualquer distribuidora. Minha principal reclamação, contra todos os distribuidores, é justamente a demora deles em fornecer um relatório fechado das vendas. Com a Saraiva não tem este problema. E isto, para mim, é crítico.  Outro aspecto a ser levado em conta, é a comissão cobrada pelas distribuidoras, que diminui a fatia a ser paga ao autor. As vendas no digital ainda são pequenas e cada % conta.

A Saraiva vende pouco? Sim, e isto é lamentável. Poderia vender mais? Sem dúvida! Melhorando a tecnologia por trás do recebimento e processamento de arquivos e metadados, conseguiria resultados melhores nas vendas. A Saraiva precisa investir mais em TI, pelo amor!! É um investimento que dá retorno. É só olhar em volta… quem investe em tecnologia, fica à frente.

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